sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A SERVIDORA ABDUZIDA

Às cinco da manhã e já estava dando banho na neta, preparando a comida da filha, limpando o banheiro, varrendo a casa, fazendo a maquiagem, uma correria diária que desafiava seus 56 anos , mas com o corpinho da Madona, que Deus foi generoso com aquela alma recifense que agora vaga pelo planalto central do Brasil como corajosa servidora pública federal.

Era tudo bem cronometrado para dar tempo de caminhar rumo a estação Ceilândia do metrô, sem pestanejar, porque aquela era a cidade-satélite mais violenta do Distrito Federal, e não se podia vacilar, principalmente, em tempo de horário de verão quando tudo era a maior escuridão, e a bandidagem corria solta atrás das mulheres gostosas como ela.

Não podia passar por um prédio em construção sem ser ovacionada de pé pelo operarido que se esvaía em assobios e apupos, gostosa, gostosa, gostosa, esse é o remédio que o doutor me receitou, você lá em casa e eu começaria chupando pela maçaneta da porta, boa é a minha mãe que me botou no mundo você é ótima, e por aí vai...

Por isso não estranhou quando um garoto malhado de academia trocou olhares libidinosos com ela no metrô, naquela sexta-feira treze brasiliense, quando se espera tudo de ruim, metrô lotado, chuva forte lá fora, prenúncio de engarrafamento quando chegar a hora da integração com o ônibus, etc, etc, etc.

Sentiu aquele calafrio nas costas, a boca ficou seca, o coração disparou e passou a ouvir aquele frevo rasgado que sempre surgia na cabeça dela quando a emoção era muito forte, coisa de pernambucana de raça que se espalha na praça, na hora do vamos ver, e que não tem pra ninguém.

Eram cinqüenta e seis aninhos e lá vai fumaça, como já se disse aqui, mas o vigor era de uma quarentinha e trá-lá-lá; e Deusanira, ou Deusa para o pessoal mais chegado do Ministério da Integração, não era mulher de abrir de parada nenhuma, ainda mais quando se tratava de coisas do coração.

Pensou no frevo, pensou no santo, pensou na filha, pensou na neta, nos peitos, nas coxas, na bunda, estava tudo em cima, e encarou o garoto bombado de academia como quem diz venha, meu bem; venha, que aqui tem; venha, que você vai levar uma chave-de-perna inesquecível; venha, danado.

Foi quando os dois desceram na estação da rodoviária do Plano Piloto, um olhando para o outro, caminhando apressados, seguindo sem ver nada em volta, e levaram uma trombada de um motoqueiro na saída da estação, caindo cada um pro seu lado, ela mais ferida que ele, quase morta, levada sem esperança para a emergência do Hospital de Base.

Duas semanas em coma depois, quando abriu os olhos e enxergou a filha, a neta e o amante segurança do Ministério da Integração, contou tudo com todos os detalhes, que havia sido abduzida por et’s, numa tarde quente e seca, quando se preparava para sair da repartição, e veio um clarão e a levou para um casarão tipo o palácio do Itamaraty, cheio de enormes janelas.

Eram todos muito parecidos com árvores do cerrado, baxinhos mas firmes; que falavam uma língua como se fosse uma mistura de alemão com espanhol, dura mas sensual; que se comportavam como os políticos com suas mentiras deslavadas, dissimulados mas nem tanto.

E que um deles a engravidou numa noite de farra muito doida, com um Reginaldo Rossi na radiola de ficha, muito rum com coca, muita rapariga brega na gafieira, um cheiro de perfume de gardênia de arrombar, uma luz vermelha profundamente infernal, e cadê a camisinha, cadê a camisinha, cadê a camisinha?

Os três escutaram tudo calados. Baixaram a cabeça, rezaram duas ave-marias e cinco pai-nossos. O amante levou a história para a repartição em busca dos atestados para evitar o corte do pagamento. A filha assumiu a limpeza da casa. E a neta parou de encher o saco na hora de comer, que o ritmo da casa passou a ser outro sem Deusa, que partiu desta para uma melhor um mês depois.

Postado por Roberto Borges

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

CIDÁLIO, O FAQUIR

Meses antes de casar, Dona Idelina confessava às amigas: teria três filhos. E todos os três seriam artistas. O fascínio pelo mundo das celebridades, cultivado desde a adolescência com a leitura das revistas especializadas em fofocas, se acentuou na fase adulta. Tal como imaginara, Dona Idelina casou com um artesão e, seriado, encomendou dois meninos e uma menina.

Desde cedo, as crianças foram induzidas e estimuladas para o universo das artes. Adolescentes, a doutrinação artística conduzida com mão-de-ferro por Dona Idelina prosseguiu. Uma missão cumprida, em parte: cada qual seguiu o seu caminho no campo artístico. Obviamente, nem tudo saiu como a matriarca na pureza de seus sonhos havia planejado para cada filho. Mas, enfim, o Brasil é, sem dúvida, um país de vocações desperdiçadas.

O mais velho, Cidrack, para quem a mãe idealizara uma brilhante carreira de pianista, no mínimo um novo Nelson Freire, tornou-se um amestrador de ursos. A última vez que se teve notícias dele foi há muito tempo, uns cinco anos. Cidrack foi visto numa região remota do Nordeste da China.

Cinara, a moça do meio, abandonou logo cedo as aulas de canto lírico. Uma grande frustração para dona Idelina que traçara para a filha uma réplica moderna de Maria Callas. Mas, nem tudo sai como se imagina. Hoje, Cinara sobrevive como stripper numa casa noturna de Praga, novo point dos descolados da Europa.

Já o filho mais novo, Cidálio, a última esperança artística da sensível senhora, desistiu da profissão de escultor. Logo Cidálio, cujas mãos, na opinião convincente de dona Idelina, se assemelhavam às do grande Rodin. Porém, a casa do Senhor tem várias moradas. Cidálio ganha a vida, honestamente, como faquir, um ofício para pouquíssimos. Otimista, Dona Idelina nunca foi mulher de reclamar. Por que se lamuriar da sorte? Pariu três filhos e os três são, cada um a seu modo, artistas.

E Cidálio, o faquir, tem tido relativo sucesso na profissão. Quando se instala na sua cama de pregos numa cidade do interior, arrasta multidões para vê-lo passar, estoicamente, até 50 dias sem colocar um pedaço de pão na boca. Só bebendo água.
Ultimamente, Cidálio conseguiu melhorar a renda, com a obtenção do patrocínio de algumas marcas de bebida energética. Afora as doações em dinheiro do público, que se impressiona com a sua resistência física. Quando os ventos estão soprando a seu favor, é possível até contar com a liberação de algum apoio financeiro das prefeituras.

Por falar em fortuna, nos últimos dias de mais uma longa temporada em absoluto jejum, Cidálio voltou a ser bafejado por ela. Conheceu uma moça tímida, jeito sedutoramente provinciano. Assim como o público, Cidele ficara realmente fascinada com a obstinação, a capacidade física e o sofrimento do faquir. Sempre que saía do escritório, dava uma passadinha na Praça da República, para conferir o desempenho do artista da fome.

No início, era só curiosidade. Mas, num final de tarde, adquiriu coragem e puxou conversa com o faquir, num momento em que ele já sentia dificuldades em se levantar da cama de pregos. Logo se tornou amiga do artista.

Quando Cidálio encerrou o espetáculo de jejum, Cidele estava lá, colada nas cordas. Foi uma das primeiras a puxar os aplausos. Depois das entrevistas para os jornais, e cessado o tumulto das pessoas que queriam conferir de perto a magreza esquelética do faquir, Cidele se aproximou. Parabenizou-o pelo sucesso e deu-lhe de presente um pote de doce.

¬¬¬¬¬¬¬___ É doce de casca de laranja da terra. Você gosta?

Um pequeno pedaço do doce foi o primeiro alimento que Cidálio colocou na boca depois de mais de um mês e meio de fome rigorosa.

Combinaram que, dentro de três ou quatro dias, quando Cidálio já estivesse recuperado da longa jornada na cama de pregos, voltariam a se encontrar.

Em menos de duas semanas, Cidálio e Cidele já estavam praticamente morando juntos na pensão onde o faquir ficara hospedado. Descobriram rapidamente que haviam nascido um para o outro. De fato, estavam felizes. Cidele também demonstrava disposição para seguir a vida do amante. Ajudaria na produção do espetáculo e recolheria as doações.

Com o apoio e praticidade de Cidele, a carreira profissional de Cidálio ganhou impulso. Depois de dezenas de apresentações pelo país afora, concordaram que precisavam ter uma casa para morar, um lugar fixo para recuperar as energias depois de cada temporada.

¬___ Uma casa pequena, mas que seja nossa, só nossa. Sem precisar dormir em quarto de pensão.

A relação harmoniosa do casal jamais era quebrada. Cidálio tinha um lado meio boêmio, provavelmente compensação psicológica ao ascetismo do faquirismo profissional. Compreensiva, Cidele era dessas mulheres desprovidas de ciúmes. Embora nunca escamoteasse os sentimentos, sejam quais fossem. Às vezes, deixava escapar uma frase mais forte, apenas com o intuito de demarcar território.

¬¬¬___ Não sou possessiva ou compulsiva. Mas, para mim, amor e sexo não são número ímpar.

Cidele gostava muito do trabalho de acompanhar Cidálio pelo mundo. Mas gostava ainda mais quando chegava em casa, depois de um longo período ausente. Num desses retornos, recebeu uma carta anônima, selada pelos Correios. O texto era claro, a sentença demolidora: Cidálio tinha uma amante. Encontrava-se com ela quando permanecia na cidade, no intervalo entre uma viagem e outra. A carta só veio reforçar uma antiga e irrevelada desconfiança da mulher do artista. Com mais frequência, Cidálio vinha se ausentando de casa, sempre alegando que precisava conseguir novos patrocínios.

Naturalmente, a carta a deixara descontrolada, com os nervos à flor da pele. Apesar disso, guardou-a. A muito custo, conseguiu dissimular o ódio, um sentimento que até então desconhecia, que passou a sentir pela traição conjugal de Cidálio. Mas, em nenhum momento, lhe perguntou nada ou deixou transparecer qualquer ressentimento. Manteve-se afetuosa, cuidando dos afazeres domésticos. A vida seguiu o seu rumo.

Uma noite, quando Cidálio chegou em casa, ligeiramente embriagado, Cidele o colocou para dormir, como sempre o fazia. Adormecido, o faquir só sentiu o primeiro golpe da machadada na cabeça. Teve morte imediata. Com frieza, Cidele esquartejou e retalhou todo o corpo do artista. Como se estivesse arrumando uma gôndola de supermercado. Embalou em papel-alumínio 64 pedaços desossados e colocou-os na geladeira duplex. Durante quase dois meses se alimentou apenas da carne do faquir. Com zelo de cozinheira profissional, sempre pensava alto quando ia preparar as refeições com os restos mortais. Uma cumplicidade mórbida que insistia em manter com o marido morto.

___ Vou temperá-lo, Cidálio, meia hora antes de colocá-lo no forno. É pra dar gosto.

Depois de ter devorado todo o corpo do faquir, Cidele disse para si mesma:

___ Agora, Cidálio, finalmente, capturei o seu espírito.

Na manhã seguinte, levou a cama de pregos que o faquir usava nas apresentações para o marceneiro reformá-la. E ordenou:

___ Quero que fique do tamanho exato do meu corpo.

A primeira apresentação de Cidele como faquir arrastou uma multidão numa pequena cidade de Pernambuco. Pela primeira vez, o público presenciava uma mulher como faquir. Portadora de admirável resistência física, Cidele, a exemplo de Cidálio, chegava a ficar até 50 dias sem alimentar.

Dois anos depois de percorrer todo o Nordeste, Cidele havia encerrado a última noite da temporada de jejum, quando um rapaz se aproximou dela. Embora vagamente lhe lembrasse alguém, ela não conseguia identificar com quem o jovem se assemelhava. Simpático, o rapaz a parabenizou pelo espetáculo, elogiou a perfomance e a resistência física, e deu-lhe de presente um pote de doce:

___ É doce de casca de laranja da terra. Você gosta?

Postado por Amin Stepple

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O MENINO E O TIO BÊBADO DO SPORT

Era a primeira vez que via um homem de terno e gravata, de cócoras, chorando no quintal de casa.

Chegou mais perto e olhou, olhou, olhou, foi se aproximando com um medo cada vez maior...

O tio não tomava jeito mesmo, enchia a cara, e aprontava cada uma; até que muitas, às vezes, bem engraçadas.

Mas daquela vez ficou realmente chocado em ver aquele homem tão bom para ele naquela cena deprimente, e recebeu um sinal.

Bem mais próximo, rosto quase colado ao do tio, quis saber o por quê, e ganhou as costumeiras bolas de gude.

Meia dúzia delas num saco de papel amassado com o símbolo do Sport Recife - o papai da cidade.

Os dois torciam pelo Sport, e o tio não falhava nunca, toda vez que aparecia, trazia as bolinhas.

Vermelhas e pretas, as cores do Leão da Ilha, que levavam os dois a uma cumplicidade profunda.

Nem deu tempo de segurar as bolinhas e a mãe já gritou ordenando que ele entrasse para o terraço.

Que deixasse o tio em paz, que aquilo não era assunto pra menino, que estava na hora do banho.

Fez que saiu para o banho e ficou escutando toda a conversa entre a mãe e o tio escondido no terraço.

E ouviu que daquela vez o tio ía se matar de verdade porque a esposa havia fugido com os filhos.

E que a vida não tinha mais nenhum sentido para um homem sem emprego sem lar sem nada.

E que a reação da mãe era a mesma de sempre, no começo reclamava, reclamava e depois fazia as pases.

Lembrava ao tio que ele ainda tinha a ela, mais a mãe deles dois, e que eram uma família unida.

E que ele parasse de beber, pensasse na esposa e nos filhos dele, que a vida era assim de altos e baixos.

Mas para ele havia algo de novo ali e que não iria terminar bem, pois nunca vira o tio e a mãe assim.

Os dois pareciam cansados daquilo, quase toda semana ela saía à procura dele pelas ruas.

E o encontrava dormindo nas calçadas, bêbado, bêbado, de dar pena aos passantes que vinham avisar.

Ela chamava o filho e os dois saíam pelo bairro atrás do bêbado, rezando para encontrá-lo com vida.

O menino cantava o hino do Sport, em silêncio, como numa reza baixinha, toda vez que encontravam o tio.

O resgate era patético, ele todo vomitado, às vezes mijado, com fezes, e a irmã dava banho, limpava ele todo.

O menino ajudando, com medo, com nojo, com pena, com vontade de fechar os olhos e sumir dali.

Sem saber ainda que haveriam momentos muito mais difíceis como os que enfrentou no manicômio.

O tio terminou sendo internado num asilo de loucos e os dias de visitas, aos domingos, eram um inferno.

Muitos doidos em volta até chegar ao tio cabisbaixo, sempre calado, sem as bolinhas do Sport.

A mãe acariciava a cabeça do irmão com carinho e dizia baixinho que tudo iria passar, que, enfim...

O menino ficava olhando, olhando, mas não se aproximava muito, preferia lembrar dos dois vibrando nos gols do Sport.

E foi assim a vida dos três por um longo e sofrido período de resgates e internações e delírios e convulsões.

Mas ao ver o tio, como agora, pela fresta da parede do terraço, acocorado no quintal, de terno, sentiu o sinal num calafrio.

Foi como naquele gol contra do Sport que calou a Ilha e deixou tio e sobrinho na lona total.

Nem o tio nem a irmã aguentavam mais tanta humilhação na vizinhança, que aquilo não era vida.

Correu para o banheiro logo depois que a mãe despachou o tio para a casa dele debaixo de esporros.

No outro dia, a empregada do tio apareceu com a notícia de que ele tinha bebido veneno pra rato.

Foi ao enterro com as bolinhas de gude rubro-negras e atirou-as uma a uma no caixão do tio, rezando o hino do Sport.

Cazá, cazá, cazá, cazá, cazá, a turma é mesmo boa, é mesmo da fuzarca, Sport, Sport, Sport, assim mesmo, bem baixinho...

Postado por Roberto Borges

O TAMPA DE CRUSH

Sabe aquele sujeito que, depois dos 40, fica com a idade meio indefinida, e ninguém ao certo faz ideia de quantos anos ele tem? É o caso de Amorim. Genética privilegiada, tendência à longevidade, qualquer palpite sobre o ano em que nasceu é tiro na água. Simpático, conversador, largo e diversificado círculo de amizades. Qualidades inquestionáveis de Amorim. Profissão, ofício, de onde provem o sustento?

___ Vivo de rendas.

De fato, Amorim era rico de berço. A indefinição etária facilitava a imaginação de Amorim, notável contador de histórias. Em momento algum deixava margens para que duvidassem da veracidade dos acontecimentos dos quais participou. Juarez, um dos interlocutores mais assíduos, não assimilava a vida rocambolesca do amigo:

___ Amorim é um mitômano. Um caso perdido, patológico.

Mas, entre as feras, havia um crédulo, Mesquita, amigo do peito e admirador confesso de Amorim e de sua vida atribulada. Na defesa, implacável:

____ É inveja. Amorim sempre foi um aventureiro. Uma espécie de testemunha ocular de fatos importantes. Não teve a vidinha monótona, sedentária desses frustrados.

Entre verdades ou mentiras, a conversa de Amorim era quase uma aula de história do Século XX. Ele sempre como protagonista, claro. O curioso é que sempre afirmava que estava lá, naquele exato momento, por mera fatalidade, coisa de destino.

Pracinha da FEB, Amorim participou da tomada de Monte Castelo, na Itália. No finalzinho da guerra, chegou a Paris, a tempo de ainda assistir à libertação da capital francesa. Uma das mais famosas fotografias da festa de libertação é a de um casal se beijando numa rua de Paris. O instante fotográfico ainda hoje corre mundo. Amorim garante. Foi ele que, passando pelo local, mostrou a cena a um fotógrafo, ali de bobeira.

___ Percebi na hora que aquela imagem do casal se beijando na boca significava o fim da guerra, o símbolo dos novos tempos de paz e amor. Eu disse para o cara: esta é a imagem. O interessante é que não só o instantâneo ficou famoso, mas também o fotógrafo, um tal de Cartier-Bresson. Por coincidência, eu estava lá.

Apaixonado por futebol, Amorim deixava a rodinha de amigos extasiada e cheia de interrogações quando o assunto resvalava para a trágica derrota do Brasil para o Uruguai, na Copa do Mundo de 50.

___ Nessa época, eu residia no Rio. E fui um dos primeiros a sair do Maracanã depois da derrota.

O silêncio tomava conta de toda a cidade. No Estácio, onde morava, Amorim foi afogar o sentimento de fracasso coletivo. Começou a beber. Queria esquecer aquele domingo terrível para a pátria. Duas horas depois, entrou no bar um homem visivelmente arrasado, cabisbaixo, cara de choro. Amorim logo o reconheceu. Era Barbosa, o goleiro da seleção que deixou passar dois gols do ataque do Uruguai.

___ Respeitei a dor dele. Mas, você sabe, a bebida relaxa e tomei a iniciativa. Se havia alguém que poderia consolar Barbosa era eu. Simples, o bar estava vazio e apenas nós dois ali, enchendo a cara.

Barbosa se martirizava, em especial com o segundo gol, de Gighia, o atacante e carrasco uruguaio. Ele se culpava, recontava o lance a todo momento, como se quisesse tentar impedir o avanço do artilheiro e o chute implacável no canto esquerdo da trave. Digno, Barbosa se negava a culpar Bigode, o lateral esquerdo da Seleção, que falhou nos lances de gol. Ele achava que engolira um tremendo frango. Só restava a Amorim consolar o grande goleiro do escrete nacional.

___ Barbosa, os deuses já tinham decidido que o Uruguai seria o campeão do mundo. Eles costumam se irritar quando veem festa antecipada.

Amorim colocou Barbosa num táxi. E ainda hoje ele se comove com a profunda expressão de tristeza no rosto do goleiro da seleção.

Os amigos sabem que Amorim mexeu com exportação e importação de algodão. E que viajava com frequência para Liverpool. Foi na cidade portuária da Inglaterra que ele fez amizade com um jovem empresário, Brian Epstein. Corria o ano de 1962.

___ Veja o que é coincidência. Depois de fechar uns negócios na Bolsa de Algodão, fui tomar um drinque num bar perto do escritório, na Matthew Street. Foi lá que conheci o Brian.

Brian Epstein, empresário de um grupo de rock, convidou Amorim para assistir à primeira apresentação dos roqueiros numa boate que existia ali perto, a Cavern Club. Apesar do ambiente fumacento e do barulho excessivo, Amorim gostou muito da performance e da musicalidade dos rapazes.

___ Depois do show, voltei a conversar com Brian. Perguntei para ele: você viu as fotos da revolução cubana? Os guerrilheiros são todos cabeludos. A moda agora é cabelo grande. Sugiro que os rapazes também fiquem cabeludos. E ainda arrisquei: você ainda vai ganhar muito dinheiro com esse grupo. O nome da banda: The Beatles.

A morte polêmica de John Kennedy ainda hoje rende reportagens quilométricas. Amorim tinha um amigo que morava no Texas, desses fazendeiros de chapelão na cabeça. Em novembro de 1963, Amorim foi convidado por ele para assistir a uma exposição de gado. Os touros do pecuarista eram famosos em toda a região. No dia em que Lee Oswald atirou em Kennedy, Amorim, por acaso, passava no exato momento pelo local da tragédia, em Dallas.

___ Quando ouvi o primeiro tiro, me escondi atrás de uma árvore. Olhei para um prédio que ficava em frente. Não o que estava Lee Oswald, mas outro, quase ao lado. Eu estava a poucos metros. Olhei para cima e pude ver claramente um fuzil. Corri para a rua e gritei bem alto, apontando na direção da janela. Quando me viu, o sujeito recolheu a arma e sumiu da janela.

Amorim escreveu um longo relatório para a Comissão Warren, a que investigou a morte de Kennedy. Ele mostrou que tinha meios de provar a existência de um segundo atirador, ainda hoje um mistério não esclarecido no episódio de Dallas. No relato, deixa claro que o segundo franco-atirador estaria mirando em Jackeline, a bela esposa do presidente. A Comissão Warren enviou uma carta agradecendo a Amorim as informações sobre aquele dia fatídico na história dos Estados Unidos. Para consolo, a Comissão reiterou que todas as hipóteses estavam sendo investigadas.

Certa manhã de agosto, Amorim foi ao banco no centro do Recife. Ia fazer um saque. Ao chegar em frente à agência, percebeu que ocorria um assalto. Bandidos e policiais começaram a trocar tiros. Uma bala perdida atingiu em cheio o tórax de Amorim.

Socorrido de imediato, Amorim foi levado para a sala de cirurgia. Quase inconsciente, ainda compreendeu que tinha sido vítima da má pontaria dos assaltantes ou dos agentes da Lei, não se sabe. Antes de morrer, sussurrou para o médico:

___ Por coincidência, eu estava lá.

No enterro de Amorim, apenas um amigo discursou. O seu único e fiel admirador, Mesquita. Ele ressaltou as qualidades do caráter de Amorim, relatou detalhes da vida intensa que ele tinha levado, recordou os fatos em que fora comprovadamente protagonista e encerrou a homenagem com uma frase que ratificava o gosto pela aventura do saudoso amigo:

___ Amorim era um tampa de crush. Lamentavelmente, abusou da sorte.

Postado por Amin Stepple

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

SEVERINA SHAKESPEARE DA SILVA

Vou vender água mineral na Rodoviária mas não me vendo, não sou qualquer uma. Compro o copinho no mercado a cinquenta centavos e vendo por um real aos passageiros. Ganho 100%.

Mas para o serviço público não vou. Não vou morrer numa repartição pública. Eu sou uma artista, preciso respirar, ser livre, não ter hora pra entrar nem para sair nem para nada.

E a mãe respondia com o mesmo amor de sempre que o pai dela já havia morrido gastando o que não tinha em teatro e que as duas precisavam se virar que a vida não era fácil pra quem decidia viver de arte.

Biusinha respirava fundo e repetia que ainda seria uma atriz. E de peças clássicas, Brecht, Strindberg, Beckett, mesmo morando na periferia de Brasília, pobre, pobre, pobre de dar dó, coitada, que aquilo não era vida.

Severina Shakespeare da Silva. De pai teatrólogo fracassado cearense e mãe artista plástica pernambucana fracassada também. Por isso crescera ouvindo Pavarotti, Chopin, Beethoven, na maior pindaíba.

A família veio do Nordeste em busca do paraíso prometido pela propaganda enganosa da construção da nova capital. Quando o casal chegou, Brasília era só barro vermelho, lama, vazio, tédio.

O padre não quis batizar Biusinha com aquele nome estranho, mas no cartório foi mole, os pais conseguiram prestar a homenagem merecida ao teatrólogo maior da humanidade.

Na escola é que era chato, ninguém sabia pronunciar direito, sheike o quê?, espíare?, espia? Foi assim até virar gente entendida e passar a achar graça naquela comédia que era a vida.

Fez escola pública direitinho, sem faltar um dia, aguentando o besteirol todo com dignidade, a ausência dos professores, as carteiras quebradas, os banheiros imundos.

Mas era no quarto do barraco do Gama, cidade-satélite de Brasília - onde foram parar depois da construção da capital - que Biusinha era rainha. Lia toda a bibliografia teatral que caía em suas mãos.

Encontrou numa lixeira da Esplanada dos Ministérios uma coleção maravilhosa com os maiores clássicos do teatro mundial. Coisa dos espíritos, milagre de Jesus, macumba do santo, sei lá o que foi.

Ainda tentou devolver ao pessoal do Teatro Nacional onde estava a lixeira da Esplanada, sem êxito, pode levar, não temos mais espaço aqui, vai como doação, menina, caia fora, suma daqui.

No barraco, a mãe desenhava, mas vivia mesmo do emprego de merendeira na escola pública onde a filha aprendera a ler; viúva, e com o maior medo de que a filha não servisse pra nada na vida, além de uma saudade arretada das maluquices do marido teatrólogo.

Ele escreveu peças que nunca foram montadas, guardava tudo numa caixa grande de papelão que ela queimou depois da morte dele, que, aliás, foi uma dádiva, um sossego pra duas, pois ele gastava todo salário de porteiro de ministério da Justiça em cachaça, na malvada cinquenta e um.

Mas retomemos ao início para acrescentar que Biusinha discutia com a mãe por causa de um emprego público de servente que acabara de ser oferecido pelo diretor da escola. Era pegar ou largar, não haveria outra boa oportunidade como aquela, minha filha, juízo, juízo.

Biusinha passaria fácil, fácil no concurso público, mas sabe como é coração de artista, ninguém domina, não tem comando, bate muito depressa que deixa sem fôlego tudo em volta, razão, juízo, medo, paixão, dor, agonia, desgraça, sufoco.

E ainda mais agora que ela acabara de ler uma peça do Nélson Rodrigues e se imaginara fazendo a personagem, num lindo dia de casa cheia, o pai assistindo, agora abstêmio, a platéia caladinha, caladinha, diante da genialidade febril das cenas perfeitas.

Olhou pra mãe como quem não se importa se um raio cair na cabeça naquele momento, respirou aquele ar que vem do fundo da alma e, pediu tempo, intervalo, em respeito ao medo das duas do futuro.

Apenas adiou a resposta para mais tarde, afinal era difícil, muito difícil, para uma atriz, aceitar ali, naquele momento, que passaria o resto da vida varrendo o chão de uma escola, assinando o ponto, como de fato aconteceu.

Postado por Roberto Borges

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A OUTRA (NADA SE PERDE...)

A vida de Zé Carneiro não era fácil. Residente da Casa dos Estudantes, cursava Química numa universidade pública. Dinheiro curto, mal dava para as refeições. Diversão só nas baladas, que de vez em quando rolavam. Numa delas, Zé Carneiro conheceu Cristiane, recepcionista numa clínica médica.

___ Moça inteligente, desenrolada, urbana.

Além da paixão, o encontro com Cristiane mudou para melhor a precária vida de estudante de Zé Carneiro. A mãe da moça gostou dele logo de cara. E mais um prato na mesa da família que morava numa casa antiga de subúrbio passou a ser obrigatório. D. Janete sabia que o cardápio da Casa do Estudante não atendia ao apetite daquele rapaz que viera do sertão se formar na capital.

Em menos de dois anos, Zé Carneiro, apaixonado, deu um passo à frente. Entregou a Cristiane uma aliança de compromisso. Ninguém ficou mais feliz do que D. Janete:

___ Ele é um rapaz bom, de futuro, e vai fazer a felicidade de minha filha.

Casamento só quando se formasse. Assim pensava Cristiane. Pouco vocacionado, Zé Carneiro viu os colegas concluírem o curso, enquanto ele se arrastava entre as complicadas fórmulas de Química. De temperamento tranquilo, Cristiane não era dessas moças apressadas, do tipo louca pra casar. Sabia esperar.

___ Tudo tem seu tempo.

Para espanto e desespero de D. Janete. A velhota não via a hora de ver a filha subir ao altar, com todo o ritual religioso.

Mais alguns anos de faculdade, e Zé Carneiro, enfim, obteve o diploma. Foram duas festas numa só: a da formatura e a do noivado. D. Janete estava radiante num vestido vermelho comprado há mais de 20 anos.

___ Casamento só quando Zé Carneiro arranjar um emprego.

Era a justificativa de Cristiane para a família.

Dois anos depois de formado, o rapaz conseguiu um emprego na Coca-Cola como auxiliar químico. Montou um pequeno apartamento e decidiu que, questão de tempo, compraria as coisas de casa e pediria Cristiane em casamento.

A mãe da moça ficou exultante com a notícia.

Certo dia, Zé Carneiro fez as contas. Entre namoro e noivado, já haviam se passado mais de 10 anos. Estava na hora de tomar a grande decisão. Convidou Cristiane para jantar. Informou-lhe que não tinha mais razão adiar a data do casamento.

___ Não posso mais lhe fazer esperar.

A moça ouviu atentamente as ponderações do noivo. Mas, para surpresa de Zé Carneiro, tirou da bolsa uma fotografia de uma bela jovem morena. Com a voz demonstrando certo nervosismo, falou:

___ Eu não posso mais te enganar. Esta aqui é o grande amor da vida, Leninha. Quando eu te conheci, eu e ela já namorávamos. Infelizmente, não posso mais continuar com você. Não é justo.

Transtornado, perplexo com a confissão de Cristiane, Zé Carneiro só teve forças para fazer-lhe um pedido, em tom de súplica. Que deixasse com ele o retrato de Leninha:

___ Quero guardar comigo alguma lembrança deste momento em que meu coração está tão dilacerado.

D. Janete quase morre quando soube do rompimento. Jamais conseguiu compreender o fim daquele quase casamento.

Já Zé Carneiro passou a beber, com gosto e vontade. Carregava sempre na carteira duas fotografias: a de Cristiane e a da namorada dela. Às vezes, quando ficava nostálgico, mostrava aos amigos as fotos. Com a voz embargada, apontava:

___ Essa é a namorada de Cristiane.

Uma noite, Zé Carneiro estava bebendo no Bar Central. Uma bela moça morena se aproximou e perguntou-lhe, sedutora e cínica:

___ Você ainda guarda a minha foto que Cristiane lhe deu?

Foi amor à primeira vista. Leninha, a moça da foto, contou que estava solteira. O romance entre ela e Cristiane havia chegado ao fim, há algum tempo.

___ Cristiane está em outra.

Em menos de um mês, Zé Carneiro saiu do emprego na Coca-Cola e pediu a moça da foto em casamento. Foram morar na cidade dele, no sertão. Os negócios estão indo bem. Leninha toma conta da mercearia. E ele empresta dinheiro a juros.

Nas noites mais quentes, os vizinhos sempre escutam a moça da foto urrar, de prazer:

___ Ai, minha nossa senhora, como se deixa um homem desse.

Postado por Amin Stepple

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O PORTEIRO MOISÉS, NÃO O BÍBLICO

O rádio estava certo, chovia muito no Recanto das Emas, uma das mais recentes cidades-satélites de Brasília que, até há bem pouco tempo, pouquíssimo tempo mesmo, era um miserável acampamento transformado agora pelos políticos num caldeirão eleitoreiro.

Ele já estava acostumado com aquela estratégia dos caciques locais, incentivavam a migração desenfreada, e os pobres vinham com seus barracos seus filhos suas doenças e suas esperanças, formando logo, logo uma comunidade desvalida que virava cidade e elegia seus padrinhos políticos.

Por isso, instalou-se no Recanto ainda na fase das ocupacões de terrenos, quando teve o barraco derrubado, levou bordoada da polícia, deu entrevista na tv reclamando seus direitos, saiu na capa do jornal levando uma gravata junto com outros colegas invasores...
Mas alguns poucos anos depois e já estava instalado num lote de papel passado em cartório, carnê de iptu, conta de luz e tudo que se pode definir como moradia. Claro que, na cidade, ainda faltavam algumas coisitas essenciais, tais como escola, posto de saúde, delegacia, mas que os deputados distritais prometiam chegar logo, logo.

E ele lá dentro daquele inferno na batalha para se virar. Foi quando resolveu criar sua própria igreja. Por que não? Era preciso muita fé, muita oração, para sobreviver naquele gueto às margens da capital federal. Olhou em volta, e a chuva castigava os frágeis barracos do Recanto. Dia de tromba d'água brasiliense. Sai de baixo.

Mas para ele era um dia lindo para se lançar uma sementinha no coração dos sofridos vizinhos. Que chuva maravilhosa, meu bom Jesus, quantos trovões, relâmpagos, é o sinal de Deus, é o sinal do altíssimo, vejam, ouçam, entendam que a hora está chegando...
E saiu gritando pelas ruas esburacadas, livrando-se das poças, escondendo-se dos raios, sem camisa, com uma bíblia na mão, um copo com água na outra colhendo os pingos, correndo, correndo, correndo, como se tivesse perdido o juízo.

Foi a primeira grande aparição de Bebel, o antibelzebu, o pastor e líder da nova Igreja Celular da Graça do Divino Enviado, a ICGDE, com seus iniciais cinco adeptos. Não precisava de muita gente agora, pois queria entender muita coisa ainda, antes de começar a ampliar o império.

O problema maior é que não sabia ler. Era louco pra saber das histórias bíblicas no original e não só contadas pelos pastores concorrentes. Gastava muita memória ouvindo as pregações das redondezas, para repetir nos cultos da ICGDE, mesmo que fosse para apenas cinco adeptos. Eram seis com ele. Vizinhos que estavam indecisos do ponto de vista religioso e que acabaram cedendo à honírica visão dele se esbaforindo durante a tromba d'água.

Mesmo assim levava R$ 1,99 de cada adepto nas sessões do fala que eu te escuto, que já dava para o lanche comunitário dos domingos e para o cigarro escondido e para a coca-cola diária da tarde. Precisava aprender novas histórias daquele livro maravilhoso que não conseguia ler, e que, quase perdeu no meio da marcante tempestade.

Como não tinha muito tempo, resolveu inventar casos que teriam ocorrido com Abraão, Josué, Noé, Moisés, essa turma. Acabara de ver num telejornal da tv, uma série de reportagens sobre Abraão, feita por um jornalista enviado especial à terra santa, contando detalhes da vida e obra daquele santo homem.

Mas deu galho. Coisa boba, mas deu. Um tal de Moisés, porteiro de ministério, concursado, ou seja, autoridade no Recanto, achou que era com ele aquela história de abrir o mar vermelho pra toda a rapaziada entrar, e encheu Bebel de bolachas na frente de todos os cinco fiéis. O Moisés, o da portaria, provou que não era fruta coisa nenhuma e que o pastor fosse enganar em outro lugar, não no Recanto das Emas, que era terra de macho fiel.

Postado por Roberto Borges

SANGUE NO VESTIDO DE NOIVA

Há quase dez anos Maria Dolores trabalhava num salão de beleza. Nunca faltara um dia sequer. Mas na sexta-feira, ela avisou que só chegaria depois do almoço. Afinal, aquele era um dia muito especial para aquela moça morena, cheia de vida, de sorriso espontâneo. Um antigo paquera lhe dissera certa vez que ela tinha um sorriso de anjo sacana. O que ele queria dizer com isso? Só Maria Dolores poderia saber. Ela e Godofredo, o seu noivo, o homem com quem ia casar. Ou, como ela sempre repetia para as amigas, o único homem que lhe deu segurança.

Um dia especial. Maria Dolores e o futuro marido iam alugar o vestido de noiva e o terno do casamento. A loja ficava na Boa Vista, centro da cidade. Aliás, o aluguel do vestido, imaculadamente branco, era presente de casamento da dona do salão, reconhecimento à excelente funcionária que ia trabalhar até quando adoecia. Já Godofredo, mestre-de-obra, estava mais acostumado a lidar com cimento e cal do que com roupas de grã-fino. Mas quem era ele para negar o desejo de Maria Dolores de casar de véu e grinalda?

No caminho para a loja, Maria Dolores ia fazendo planos e contas, contas e planos. Ela sabia que casamento é renúncia. Mas estava disposta a abrir mão da vida de solteira, do descompromisso do dia-a-dia, das festas de final de semana. O que queria mesmo era viver com Godofredo e ter filhos, muitos filhos. É o que mais desejava, apesar de saber que a vida estava cada dia mais difícil para todos.

Praticamente chegaram juntos à loja. Um bom sinal. As coisas estavam dando certo. Escolher um terno para o noivo não foi tarefa fácil. Desengonçado de nascença, foi difícil achar um paletó que caísse bem no parrudo mestre-de-obra. Depois de várias tentativas, a escolha recaiu sobre um preto. Até que combinou, pensou Maria Dolores quando entrava na cabine para a prova do seu vestido. O corpo da morenaça facilitou o trabalho do espelho. A noiva ia ficar realmente muito bonita, com o vestido imaculadamente branco. Um sorriso de anjo sacana.

Enquanto Maria Dolores estava na cabine, Godofredo conversava com a atendente sobre o preço do aluguel das roupas. Nesse momento, como sempre acontece na narrativa das páginas policiais, dois bandidos, armados de revólver, entram na loja e anunciam o assalto. Nervosos, limpam o caixa e todo o dinheiro que o noivo tinha levado para o aluguel das roupas.

Quando estavam para fugir, Maria Dolores sai da cabine, ainda vestida de noiva. Surpreendido, um dos ladrões atira. Disparo certeiro no peito da moça. A fuga dos assaltantes é rápida. A queda da moça mais ainda. Godofredo corre para socorrê-la. Pressentindo que vai morrer, Maria Dolores ainda tem força para dizer, bem baixinho:

“Amor, me guardei a vida inteira para você”.

Com o vestido de noiva manchado de sangue, Maria Dolores foi enterrada no Cemitério da Várzea.

Desde então, Godofredo, sempre vestindo terno preto, se fechou para o mundo, de luto. Passou a ser conhecido como o viúvo da loja de roupas de aluguel.

Postado por Amin Stepple

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O SHOW DO REI NO NAVIO

A bala passou rente à testa, abaixou-se segundos antes. Foi quase. O segurança da farmácia também estava com medo. Biba deu mais um tiro, levou outro. Nenhum deles acertou nada. Os clientes apavorados escondiam-se de qualquer jeito, debaixo do balcão, atrás das prateleiras, e tome bala por todo lado.

A confusão deu uma diminuída depois dele fazer uma refém. Puxou a moça pelo cabelo, pediu silêncio com um grito endoidecido que calou a farmácia, que era para todo mundo ali ficar esperto senão a vítima iria pro fundo dos infernos, junto com ele e tudo, tá ligado?

Mas nada daquilo teria acontecido se ele não tivesse desprezado o convite do pastor para ser o criador dos cenários dos cultos. Sabia desenhar muito bem. Aliás, pichava muito bem. Foi da turma do Picasso não pichava - programa social da Ceilândia, a mais violenta cidade-satélite de Brasília.

O pastor era fã e encomendou pinturas diabólicas, demoníacas, satânicas para ilustrar as sessões de descarrego. Mas Biba estava em outra. Gostava mesmo era de pixar - com x. Os prédios mais altos da capital federal. Os muros das mansões mais inatingíveis. Os viadutos, as escolas, os hospitais.

Quando fumava crack, então, fazia cada viagem, mano, que não dá nem pra contar aqui, tá ligado? Escalava o imóvel, à primeira vista intocável, com a agilidade do homem-aranha, saca? Aquilo era sinistro, cara, muito louco, maluco-uuuuuuuu.

E agora estava no meio de um assalto à farmácia da quadra onde morava. Pensava em tanta coisa ao mesmo tempo, que aquele turco safado, dono da farmácia merecia um teco na cuca, sim, afinal lhe negara um remédio barato para avó doente não fazia nem um mês; que aquilo podia dar na maior merda do mundo e ele terminar os dias na penitenciária da Papuda; e que aparecer na tv, com o revólver na cabeça da refém, como ele estava assistindo naquele instante, não tinha nada a ver...

Biba estava ferrado. Quem dera desenhasse o que pastor queria. Mas não, não, preferiu o crime. Precisava de mais dinheiro, muito mais que o pastor poderia pagar. E não era pra ele, mas para avó doente que tinha um sonho: assistir ao show do rei Roberto Carlos no navio.

Que sonho doido, vó, maneiro, maneiro, mas muito louco, louco mesmo, viagem total. Vai, sim, a gente vai navegar com o rei, logo a senhora que nunca me pede nada, que não deseja nada, que está sempre doente, que vive na lama, merece, sim, merece, e a gente vai pra essa parada, sim.

Biba no crack virava outro. Era o dono do mundo. Viajava fácil, fácil na maionese. Quando conseguia dormir tinha pesadelo que estava na praça da alimentação do maior shopping da cidade com um fuzil israelense na mão detonando toda aquela gente que não deixava ele entrar lá. Era bala pra todo lado, nos balconistas, na clientela, nos caixas eletrônicos, nas lanchonetes. Fire, fire, fire. Só escapava a mãe, que ele ainda não conhecia, mas que a avó jurava ainda estar viva em alguma parte daquele cerradão de meus Deus...

Então, o Bope foi chamado. Biba ouviu pela tv. A repórter estava ao vivo, bonitinha que nem a moça que ele viu uma vez na entrada do shopping e que apaixonou na hora. O que foi aquilo naquele dia, minha nossa senhora? Foi tão forte que ele até chorou ao ouvir uma música de dupla sertaneja que tocou no rádio na hora. Nunca imaginara que choraria diante de canções sertanejas que até lhe causavam ânsia de vômito nos dias normais.

Mas o repertório agora, quando começa a negociação com a polícia é o da preferida de sempre, de cabeceira, dos melhores momentos de pixação, a Amy Winehouse - No, No, No...Cada vez mais alto, No, no, no. Como se ele estivesse com o ipod roubado, aquele da capinha branca, No, no, no...Cada vez mais alto. Daí não deu nem pra ouvir o tiro. O atirador do Bope, que em Brasília não erra uma, detonou a cabeça de Biba, ao vivo, para todo o Brasil.

A avó assitiu a tudo com a vizinhança do lado, e ainda reuniu forças para contar à bela repórter, horas depois, em meio a um chororô danado, na surrada poltrona do barraco, que Biba era um neto muito bom, que ela queria justiça, que ele era tão bom que todo ano assistia ao show do rei pela tv, na véspera de natal, de mãos-dadas com ela, até o final, sem reclamar de nada, até o fim, sem levantar nem nos intervalos, até o fim.

Postado por Roberto Borges

LIVRE-ARBÍTRIO

O céu amanhecera nublado na quarta-feira. Elinaldo Santarém foi à janela da sala, abriu uma fresta na cortina e olhou as nuvens. Calculou que, sem demora, cairia uma chuva fina. Tentou lembrar onde tinha colocado o guarda-chuva. Há meses não o usava. Aposentado da Rede Ferroviária, viúvo e solitário, toda quarta Elinaldo tinha um compromisso familiar. Pegava o trem e ia visitar a única irmã, mais velha do que ele, residente no subúrbio.

Vinte minutos depois, Elinaldo voltou à janela e olhou mais uma vez para o céu. Talvez tenha errado o cálculo, pensou, e só comece a chover à tarde. Também estava em dúvida se deveria sair de casa naquela quarta. Gripava com facilidade. Permaneceu olhando a rua e se deixou levar por divagações a respeito do tempo.

Elinaldo chegou a tempo de pegar o trem das oito na estação central. Na viagem de quarenta minutos em direção ao subúrbio, Elinaldo gostava de sentar na cadeira da janela. Imaginar como seria a vida dos transeuntes pelos quais o trem passava veloz e indiferente ajudava a viagem a ser mais rápida. Um passatempo que dispensava, claro, qualquer tipo de envolvimento afetivo. O trem passava, e, por ele, as pessoas, todas desconhecidas do aposentado, mas cujas vidas estavam sendo reescritas pela mente fantasiosa de Elinaldo, sem que, obviamente, elas soubessem.

A moça caminha com uma sombrinha de fabricação chinesa. Até então, ela ia à escola. Mas, sem saber bem por quê, repentinamente, tomou outro rumo, diferente do que havia planejado. No próximo quarteirão, irá esbarrar, casualmente, num rapaz, com cara de balconista de farmácia. Exatamente como acontece nos scripts das novelas, ele apanha a sombrinha e pede desculpas à moça. Amor à primeira vista? Em pouco tempo, viverão juntos. Assim começam os romances, refletia o aposentado, ao recordar uma antiga canção, enquanto a paisagem mudava no ritmo dos trilhos.

Mal Elinaldo terminara de refazer o roteiro imaginário da moça da sombrinha, ouviu um forte estrondo. Fração de segundo. Tempo suficiente apenas para perceber que o mundo se transformara numa montanha de ferros distorcidos e que tudo estava de cabeça para baixo. Ainda conseguiu ver a placa vermelha de que era proibido fumar. Desmaiou.

Naquela manhã de quarta-feira, Elinaldo saiu atrasado de casa, sem tomar café. Esperava pegar o trem das oito, na estação central. Acelerou o passo, mas logo compreendeu a inutilidade de correr. O trem saía pontualmente às oito, não esperava por ninguém. Muito menos por um aposentado que iria visitar a irmã. Poderia pegar o das oito e meia. Afinal, não tinha pressa. Elinaldo chegou à estação alguns minutos depois da partida do trem. Comprou o bilhete do próximo horário e lembrou que não havia tomado café.

Entrou no primeiro bar, na parte externa da estação. Café com leite e pão com ovo. A pedida de sempre. Naquela hora da manhã, era o único cliente e escolheu uma mesa perto da porta da entrada. Ficou olhando para a rua, enquanto a garçonete ligava a cafeteira. Minutos depois, entra no bar um cara sem camisa, com um facão na mão direita. Os olhos alucinados não deixavam dúvida: um louco furioso escapara do hospício. Sem dizer uma palavra, dirigiu-se à mesa de Elinaldo e, num gesto brusco, enfiou-lhe o facão no peito. O jato de sangue respingou no rosto do agressor. Antes de cair, Elinaldo ainda conseguiu olhar, num pedaço de céu, as nuvens se mancharem de tonalidade vermelha.

Como fazia toda quarta-feira, Elinaldo saiu cedo de casa. Detestava perder o trem das oito. Não gostava de criar expectativas negativas na única irmã. Para ela, a visita de Elinaldo era sagrada, aguardada com ansiedade durante toda a semana. Além disso, a irmã morava longe. Perder o trem das oito significava complicar o restante da manhã. Antes de chegar à estação central, Elinaldo parou numa banca de revistas para comprar o jornal. Depois, caminhou em direção à faixa de pedestres para atravessar, com segurança, a avenida. Posicionou-se no meio-fio à espera do semáforo abrir. Lembrou que precisava comprar umas maçãs. Sem que notasse, um cavalo, que momentos antes pastava solto num terreno baldio, avançou pela calçada e cravou os dentes nas costas de Elinaldo. A dor foi dilacerante, tanta que o aposentado perdeu, de imediato, os sentidos. Não sem antes olhar, pela última vez, para o sinal de trânsito, que continuava vermelho para os pedestres.

O céu amanhecera nublado naquela manhã da quarta-feira. Elinaldo Santarém foi até a janela da sala, abriu uma fresta na cortina e olhou as nuvens. Calculou que, daqui a pouco, cairia uma chuva fina. Sentou-se no sofá e começou a ler a seção de horóscopo do jornal. Ficou surpreso. O dia não era recomendável para os nascidos em Escorpião saírem de casa. Os compromissos agendados em locais distantes deveriam ser adiados. A combinação de Marte, o planeta vermelho, com Júpiter previa a possibilidade de ocorrerem acidentes graves com as pessoas regidas por aquele signo.

Depois de dobrar o jornal, o aposentado resolveu que naquela quarta não iria visitar a única irmã. Nem mesmo sabia onde tinha colocado o guarda-chuva. Ficaria em casa. Lá fora, caía uma chuva fina, molhando as árvores, a calçada, a vida. Voltou a vestir o pijama e colocou um filme faroeste no DVD

No velho Oeste, o sol brilhava. Um sol vermelho, de dois canos.

Postado por Amin Stepple

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O GARANHÃO SUTIL

Chegou a uma fase da vida que passou a sublimar até as mulheres, mas apenas para contatos físicos, não, os visuais. Onde queriam revólver, era coqueiro; onde queriam Leblom, Pernambuco; eunuco, garanhão, mas um garanhão sutil. Gostava era dele. Mais do que qualquer outra criatura. Um garanhão de si mesmo. De preferir fazer justiça com as próprias mãos, quando se tratava do prazer mundano. E não tivesse descoberto a arte de fazer cursinhos para emprego público já estaria fora do planeta há muito tempo.

Perguntava ao travesseiro por que era daquele jeito, por que não era como gostaria de ser, por que não era como os outros diziam que ele era, por que não fazia nada que rendesse dinheiro, por que nunca havia vivido um grande amor, por que não se interessava por uma causa qualquer, porque só comprava na alta e vendia na baixa, por que não conseguia dormir uma noite inteira?

Queria uma profissão, uma ideologia, uma crença. Mas vivia na contramão, como peixe fora d'água. Veio com defeito de fábrica, mas reclamar a quem a esta altura do campeonato? Ao Procom? Por que só via a imagem mas nunca conseguia ouvir o som quando assistia aos telejornais? O que aqueles belos moços e belas moças diziam que ele não ouvia? Adorava ver as repórteres falando, falando, falando, mas não entendia nada. Lindas, lindas, lindas, principalmente, as correspondentes internacionais: Giuliana, Giuliana, Giuliana.

Foi quando resolveu fazer concursos públicos em Brasília, a capital dos cursinhos. Virou concurseiro. Não queria passar, mas se en-tur-mar. Conhecer gente. Fazer amizades. Tanto é que estudava, estudava, estudava, mas faltava o dia da prova. O ritual era o mesmo: matriculava-se, conhecia as pessoas, e adoecia no dia D. O próximo concurso seria sempre bem melhor, seja para agente de portaria, ascensorista ou escriturário.

Nas salas de aula era calado. Mudo. Nem boa tarde nem nada. Entrava, e ficava sozinho na última fila. A meta era fotografar mentalmente as colegas para consumir depois, com calma, no aconchego do lar: o garanhão sutil investia silenciosamente, fitava bem a presa, com a máxima atenção, em busca de detalhes, minúcias.

Muitas vezes a colega estranhava tanta concentração em cima dela mas para ele quanto mais tempo na coleta visual melhor para o deleite noturno. Não queria contato físico com ninguém a não ser com ele próprio. Aliás, nunca quis, sempre se resolveu sozinho, nada de toques, beijos, abraços, procriação zero.

E seguiu fazendo cursinhos para nível médio, que é onde dizia encontrar as mulheres mais desejáveis. Os de nível superior reuniam mais as barangas. Queria as suburbanas, as que se vestiam nos magazines populares, que se arriscavam em saltos cinematográficos, que circulavam de ônibus, que distribuíam sensualidade até mesmo nos dias de prova, as que não estavam nem aí, assim como ele.

Fotografava com esmero uma colega suburbana por dia. E voltava para quitinete onde morava, para relaxar. Era tão feliz naquela cidade onde ninguém aparecia pra saber da vida de alguém. Um imenso vazio niemaiarmente sufocante.

Que lugar maravilhoso para alguma irremediável necessidade de se esconder um cadáver. Quanta vastidão ociosa, silenciosa, oculta. Como era bom não ter que dar bom dia nem boa tarde nem boa noite.

Para ele era só fechar os olhos e seu mundo único de sonho e aventura e magia aflorava. Sem sair da quitinete. Como se nunca tivesse saído da terra natal. Como se não fosse mais migrante, apenas um estrangeiro no próprio país.

Postado por Roberto Borges

RESSURREIÇÃO DE UM CANALHA

___ Beber é uma virtude. Se embriagar é canalhice.

Os amigos de farra já sabiam. Quando Felicinho disparava a frase na mesa de bar, logo depois de tomar a primeira dose de Bacardi, a virtude ia, aos poucos, perdendo terreno para a canalhice. Entenda-se aqui por canalhice certa ousadia desmedida, como alisar a bunda das moças. Sem, claro, a devida autorização. Mas Felicinho era assim. E os boêmios achavam graça naquela irreverência, quase loucura.

Solteirão aos 41 anos, Felicinho poderia ser definido à moda antiga: um rapaz velho. Morava sozinho num pequeno apartamento no Torreão. Mas ainda vivia sob as ordens da vigilante mãe, uma senhora sertaneja, afável e de caráter retilíneo. Sóbrio, o rapaz velho era tímido, educadíssimo, incapaz de uma lorota ou indelicadeza de qualquer espécie. Bêbado, outra personalidade, extrovertido, muitas vezes irreconhecível, o cão chupando manga.

Em defesa de Felicinho diga-se que ele vinha gradativamente reduzindo o número de farras. Em compensação, aumentava a quantidade sequenciada de dias em que se dedicava aos prazeres do álcool. Quando decidia emendar a noitada, o dia seguinte também virava noite, até que o sono o abatesse em pleno voo etílico.

Foi numa dessas jornadas noturnas que Felicinho encontrou a morte o esperando no corredor do quinto andar do prédio onde residia. Embriagado, pegou o elevador, desceu no quinto, e aí começou o drama. Felicinho pensou que estava no seu quarto e tirou toda a roupa para dormir. Logo adormeceu no chão frio. Sono profundo, saldo acumulado de três dias e noites de saturnais baladas.

Às seis da manhã, a doméstica Ester foi comprar pão e leite. Assim que colocou os pés no corredor, tomou um grande susto. Viu Felicinho deitado, completamente nu. Saiu a correr pelo prédio:

___ Um homem morto! Tem um homem morto no quinto andar!

O síndico, um sujeito que havia servido na Segunda Guerra Mundial e ostentava falsas medalhas por bravura, foi um dos primeiros a chegar. Constatou que o rapaz velho tinha, de fato, falecido. Proibiu a circulação de crianças no corredor e pediu a compreensão dos moradores para evitar tumulto, até a chegada da funerária.

Como sempre, os agentes funerários foram rápidos, eficientes e frios. Trabalhoso foi vestir o único terno disponível, gentilmente cedido pelo pracinha da FEB.

Em poucas horas, Felicinho estava sendo velado pelos amigos pinguços e poucos parentes. A mãe, chorosa, inconsolável. Mas ainda tinha força para insistir que o enterro fosse feito apenas no dia seguinte. Alguns familiares já estavam a caminho, vindos do Rio de Janeiro.

Na manhã do sepultamento, depois da alma do boêmio ter sido bem recomendada aos céus em missa de corpo presente, se escuta um sonoro gemido. Na verdade, um arroto choco, produto de uma ressaca brutal. O pânico tomou conta da sala do velório. Os parentes choravam, o padre se benzia, os amigos aterrorizados, enquanto Felicinho se levantava lentamente do caixão. Com cara de sono, sem entender o que estava acontecendo.

Uma prima carioca, Fátima, amasiada com um traficante do morro do Borel, com o abominável sotaque de Madureira, proclamava:

___ É milagre, um verdadeiro milagre.

Refeitos do susto e do equívoco, os amigos de copo e de velório decidiram ir ao bar da esquina para comemorar a “ressurreição” de Felicinho. Ou mais uma de suas canalhices.

Desidratado, abatido, com uma ressaca braba, dessas de cortar com gilete, mas emocionado, Felicinho abraçou e beijou a matriarca sertaneja. Ainda com a voz cavernosa, disse:

___ Mãe, tenho de tirar uma segunda certidão de nascimento no Cartório João Roma. Nasci novamente.

Postado por Amin Stepple

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

JUNINHO XIBATOZAN

O nome vale mais que mil palavras. Era tudo de bom na arte de agradar ao sexo frágil. Tinha o que as mais velhas gostavam, o néctar das fêmeas mais maduras, o doce mais gostoso, o bombom delicioso, o vinho servido à temperatura da melhor idade.

Exímio cozinheiro, pé de valsa completo, galante e discreto.

Sabia dar um boa noite à uma mulher carente. Afinal, era a sua única fonte de renda. Mas não gostava de ser chamado de garoto de programa. Definia-se como um animador sexual. Aliás era assim que entitulava o anúncio nos classificados do jornal em que oferecia seus serviços.

Xibatozan na veia. Era o que recomendava para as desiludidas, mal amadas, desvalidas em geral. A caça era nos shoppings. Domingo à tarde, o melhor momento. Não importava peso, cor, tamanho. A dica era o nível de carência estampado no olhar.

Quando sentia firmeza, seguia a vítima pelo shopping inteiro. Era companhia, à delicada distância, para apreciação das vitrines, para troca de olhares no sobe e desce da rolante, para furtivos comentários na livraria, para falsas paradas na praça de alimentação...

Foi assim com esta senhora que cruzou o caminho de Juninho, numa tarde dominical brasiliense, daquelas em que a capital federal vira um imenso azul incandescente, e o céu emenda com a avenida, como se tudo em volta fosse o mar tão distante e impossível e desnecessário.

Isso tudo lá fora, porque aqui dentro do shopping a vida é toda igual: tanto faz Brasília, Recife, Lisboa. É como a vida vazia de quem vive de biscates amorosos feito Juninho e Emerenciana, a tal senhora. A vida no shopping é sem luz natural, ar con-di-ci-o-na-do, onde não chove nem faz sol nem a lua aparece.

Então, ela passa e ele vai atrás. Lança o olhar de esguelha, emenda com o avassalador boa tarde e fica à espreita da colheita. A princípio, Emerenciana não acreditou. Aquilo tudo era muito, muito, muito pro seu quintalzinho septuagenário.

Juninho era assim. Jogava pesado. Às vezes brincavam que era xibatozan na véia. Isso mesmo. Com acento. Mas ele nem estava aí, contanto que deixasse em dia os carnês das Casas Bahia. Era um consumidor contumaz, tv de plasma, dvd's, celulares...

Mas com jeito, sobe aqui, desce ali, e os dois sucumbiram ao calor da paixão à primeira vista. E não fosse o ciúme do motorista de Emerenciana e Juninho teria aplicado a dose de xibatozan ainda naquela noite. Ficou pra depois de muitas sessões na escola de dança que ela financiou pra ele.

Postado por Roberto Borges

O CAÇADOR DE SÓSIAS

­­­­__ Não existe mulher difícil, e sim mal cantada.

Existem os clichês. Até sedutores seriais os colecionam. Nem todos. Fabiano Negão, por exemplo, se orgulhava de duas coisas. Sedutor serial assumido, jamais recorreu a esse tipo de frase nas improváveis conquistas do sexo oposto. Leitor de poetas tísicos do século XIX, Fabiano Negão qualificava os clichês como vulgares. Ou, como preferia dizer: “vulgares e silvestres”. Aliás, ele nunca conseguiu compreender a expressão “sexo oposto”.

__Oposto a quem? Não a mim, alma gêmea das mulheres.

E a segunda fonte de orgulho? Fabiano Negão não escondia a soberba de ser reservista de terceira categoria. Caserna, repetia, é antro de boiolagem. Nascera para os prazeres mundanos da vida civil. O apelido advinha da pele tostada em prolongada exposição aos ultravioletas à beira do Atlântico. Nunca se incomodou com o apelido colocado pelos amigos, alguns invejosos do seu desempenho com o “sexo oposto”. Outros, mais sarcásticos, chegaram a ensaiar um derivativo patronímico: Fabiano pardo-ibge. Não colou. E o afetuoso Negão permaneceu, numa boa.

As praias, com seus quilômetros de biquínis sarados, sempre foram território liberado para Fabiano Negão exercitar o donjuanismo. Mas, como as espécies evoluem, atualmente se considerava um trânsfuga da solaridade. Poetizava o recolhimento:

­­­­­__ Já tenho poeira de alto mar demais na epiderme.

Os ambientes climatizados se tornaram os preferenciais. Shoppings, torres polares de observação: no lugar da quase nudez da praia, a nudez apenas sugerida, insinuada, a ser explorada. Um cruzamento de pernas, um eventual “relâmpago” (como ele, numa licença meteorológica, denominava o lance de calcinha), o decote audacioso, a beleza católica do “cofrinho”. Trabalho mais para arqueólogo, a pesquisar com habilidade tesouros ocultos, imperceptíveis para os amadores.

__ Embora tenha horror às múmias, acho bela a arqueologia, uma profissão que requer paciência, muita paciência.

Fabiano Negão se dizia um cultor da paciência, excêntrico traço oriental de sua personalidade. Graças a essa característica, se tornara exímio seguidor de mulheres nos shoppings, uma técnica refinada de aproximação, aprimorada em manuais de sobrevivência em florestas tropicais, tática infalível na busca e caça da presa. Orgulhava-se do seu sofisticado know-how:

___ Seguir mulheres é uma arte para poucos.

As espécies evoluem. Fabiano Negão superara a etapa de seguir mulheres apenas por serem gostosas, tesudas. Ele vivenciava outro estágio de sedução. Seguir sim, mas só as que fossem sósias de mulheres célebres, sem levar em conta a área em que atuassem: atrizes, cantoras, modelos, até ministras, a depender das circunstâncias.

Predestinado para o ofício, Fabiano Negão, nos poucos momentos em que violava a discrição (um dos mandamentos do sedutor), relatava para os amigos o butim das expedições. O cast de sósias de mulheres famosas incluía surpreendente biodiversidade, algumas que só o gosto de Fabiano Negão poderia justificar, pouco importa.

Alguém da turma, viciado nas indefectíveis listas, chegou a anotar alguns nomes das originais das sósias que não resistiram à sua lábia aliciante:

· Wilza Carla, vedete que brilhou nos anos 70/80, célebre pela seiva dos seios, divindade de tetas totêmicas. Fez sucesso como jurada de TV e atriz de filmes undergrounds.

· Angela Rô Rô, cantora de voz bonita e rouca, colega de farra do cineasta Glauber Rocha e de operários de construção. Autora de versos cálidos, capazes de evaporar em pouco tempo uma garrafa de Bacardi: “Amor, meu grande amor, não chegue na hora marcada...”

· Zezé Macedo, atriz da época de ouro das chanchadas. Fez dezenas de filmes, ao lado de monstros sagrados da comédia como Oscarito e Grande Otelo. Linda, à sua maneira.

· Helena Ramos, grande e bela dama do cinema erótico. Pernas pioneiras e maravilhosas. Promessa de felicidade para as mãos calejadas de toda uma geração.

· Vera Fischer, atriz e deusa de púbis insurrecto. Personalidade aditivada, iconoclasta, óvni a deixar rastros luminosos pelo céu de anil.

Pela questionável contabilidade de Fabiano Negão faltava apenas uma sósia para fechar o ciclo de suas mil conquistas. O brasileiríssimo e cabalístico milésimo, única contribuição dos matemáticos brasileiros para a valorização dos números superlativos. Perfeccionista, Fabiano Negão se impôs rigoroso controle de qualidade.

­­­__ Ou uma sósia de Luana Piovani ou nada. Paro na 999.

Os raides aos shoppings se tornaram diários. Sabe-se que a sorte é uma das aliadas dos príncipes. Final de tarde, corredor iluminado por vitrines de lingerie, eis que Fabiano Negão se depara com uma das mulheres mais lindas que o milagre da proteína já produziu.

__ Se eu tivesse sido cineclubista nos anos 60, pensaria que estaria diante de Monica Vitti.

Mas não. A moça era a cópia perfeita de Luana Piovani, que os nacionalistas assinantes de revistas de fofocas alardeiam como a reprodução nacional da atriz italiana. O impacto vertiginoso mexeu com o experiente conquistador. Toda vez que cruzava o olhar com uma felina, de longas e bem cuidadas unhas, Fabiano Negão lamentava que Hollywood não mais lançasse filmes de aventuras na selva. E filosofava:

__ A humanidade perdeu muito depois que abandonou as filhas de Tarzan nas selvas do Congo.

Contrariando um de seus principais predicados de sedutor, a paciência oriental, Fabiano Negão seguiu a sósia de Luana Piovani por pouco tempo, bem abaixo da média padrão, estimada em trinta minutos. Quando a moça sentou na praça da alimentação, Fabiano Negão, irrequieto, cedeu à ansiedade. Se aproximou, pediu licença e sentou. Apostou no elemento surpresa:

­___ Você é a milésima sósia de minha coleção.

Pasma, sem entender nada, a jovem perguntou:

__ Sósia de quem?

Confiante na abordagem, Fabiano Negão, com a voz meio trêmula, revelou:

___ Sósia de Luana Piovani.

O estalo da tapa no rosto de Fabiano Negão ecoou pela praça da alimentação. As unhas do clone do produto similar nacional da atriz italiana traçaram rascantes relevos na cara do conquistador, iguais aos que se aprende nos livros de geografia da sexta série. Abatido, Fabiano Negão não perdeu a pose aristocrática. Pediu desculpas e se retirou, como um Rondon incompreendido e alvejado por flechas venenosas.

Refugiado num banco do corredor das lojas de lingerie, com a visão ainda turva, lembrou como consolo da frase que lera no romance “Suave é a Noite”, de Scott Fitzgerald.

__ “Creio que a culpa foi minha. Nunca conte uma coisa a uma mulher antes de terminada”.

Postada por Amin Stepple

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A SESSENTONA GATINHA

Acordou preocupada com o fim do trema. Nervosa, ansiosa, estressada: porque aquilo não podia, sem trema não dava. Como arguir sem ele?. Fica faltando um pedaço, e coisa e tal, e assim não dá, não pode ser...

Nem a promessa do profesror de português de enviar um e-mail para a academia brasileira de letras esculhambando lhe acalmou. Queria mais. Queria desabafar, cadê o padre, o pastor, o psiquiatra, o amigo gay, enfim, não haveria vida sem o trema.

Coitada. Era assim com ela. Tinha tudo, mas entediada até a medula. Servidora pública, de carreira, aposentada, e com um contracheque de gerar aplausos cada vez que era emitido. Alguma coisa entre 20 e 25 pastilhas valdas, incluindo as gratificações, os quinquênios,etc.

Mas o coração vazio. Faltava alguma coisa para aquele corpinho de sessenta aninhos. Sim, porque era ga-ti-nha. Tudo em cima. Várias plásticas, lipos, recauchutagens. Estava inteira para o primeiro momento, o grande dia, a hora que a juropoca iria piar.

Isso mesmo: v-i-r-g-e-m. Segredo de Estado. Não comentava nem com ela mesma que era para não vazar. Eu sei porque sou o autor e, quem é escritor sabe, que a gente precisa contar tudo dos personagens, não guardar nada, jogar tudo pra fora, senão explode de vez.

Raimunda ou Ray ou Raysinha - com y mesmo, para os mais chegados, precisava mudar. Mas muito exigente, tornava tudo mais difícil. Queria um homem pra chamar de seu, desde que rolasse, também, passeio de mão dada em shopping, beijo na boca demorado e sessões de vídeo em casa, com clássicos tipo A Noviça Rebelde, que ela já havia assistido a mais de 50 vezes.

Do outro lado da península dos Ministros, onde ficava a mansão da Raysinha, - que ela dividia com um cachorrinho muito sapeca, (Tobby e eu), e com uma governanta durona, doida pela cantora Ana Carolina, da fase antes do Seu Jorge; - vivia Severino, o Biu Pé de Mesa, - mais precisamente na zona leste da cidade-satélite do Gama, a mais violenta do Distrito Federal.

Muito bem. Acho que já estamos preparados para o encontro dessas duas almas completamente distintas. Tão longe, mas tão perto. É verdade que circulavam pelos mesmos corredores do Congresso Nacional, sem nunca terem se percebido com tanta intensidade, como naquela tarde fria e seca e solitária do planalto central do Brasil.

Ela, mesmo aposentada, não deixava de comparecer ao setor da Taquigrafia onde ralou por mais de três décadas, só que agora apenas como revendedora de produtos de beleza, desculpa boba para reencontrar as amigas.

E ele, agente de portaria, mas da entrada contrária à que Raysinha costumava entrar.

Quem conhece o Congresso sabe que são muitas as portarias que dão acesso à casa do povo, e que, talvez, por isso, tenha tanta gente vagabundeando pelos corredores, fazendo hora, matando o tempo, usufruindo do ar condicionado maravilhoso de lá.

Severino ganhou a vaga na portaria depois de namorar o chefe da empresa de limpeza onde trabalhava, mereceu do patrão o apelido de Seu Jorge, antes da fase da Ana Carolina: começou varrendo o chão, mas o chefe logo viu que aquilo não era homem pra gastar energia em serviço pesado, e promoveu Biusinho para o cargo que o tornou mais visível para o coração de Raysinha.

Os dois, finalmente, na mesma portaria, por um acaso divino, e foi tesão à primeira vista. Raysinha havia escorregado, o salto quebrou, e Biusinho, agora mais Seu Jorge do que nunca, entrou em cena para salvar aquela gatinha sessentona caída, desprotegida, abandonada. E fez questão de leva-la ao carro, equilibrando-a em seus longos ombros, com suas arrebatadoras garras.

Raysinha torcera o pé, e o nosso herói assumiu o volante até à mansão. Durante a viagem pela Esplanada dos Ministérios, silêncio sepulcral. Biusinho, apesar de só pensar naquilo, disfarçava, olhando as fachadas daqueles prédios todos iguais, sem criatividade nenhuma.
E ela, por alguns momentos, pensou ser a Julie Andrews, como em A Noviça Rebelde, ser a mulher que chega para organizar a vida de um homem, mesmo rodeado de filhos, sei lá, mil coisas, sabe?

Primeiro encontro não rola nada. É praxe. Trocaram e-mails durante meses. Biusinho numa Lan house e ela na sala da Taquigrafia. As colegas curiosas, a governanta enciumada, o cachorrinho cada vez mais arredio. Até o dia em que Raysinha aceitou o convite e foi ao ensaio da Aruc, a associação recreativa dos unidos do Cruzeiro, bairro de classe méia baixa de Brasília. Uma roda de samba nem na Península dos Ministros nem na horripilante Gama.

Loucura, loucura, loucura. A mulher se encontrou. Aquele era o homem. Saiu da escola de samba pronta para o abate. Nem precisa contar aqui o kama sutra que Biusinho aprontou. Talvez citar algumas posições praticadas, tais como: chave-angular, pão-de-açúcar, estava-escrito-nas-estrelas, eram-os-deuses-astronautas? e a apoteótica, se-eu-quiser-falar-com-deus.

Foi preto no branco. Pra dar em casamento. Comprou moto pra Biusinho, celular pós, terno de primeira, cartão de crédito liberado...Uma grande farra que, com ela era assim, nada de economia quando se está diante de um grande amor, e no caso dele, bota grande nisso, como já vimos no primeiro apelido.

Raysinha estava cega. As amigas invejosas enchiam o saco. Não pode, não pode, não pode, onde já se viu, mesmo que ele pareça com Seu Jorge, aquele volume todo, não justifica esse gasto desenfreado de nossa amiga com um homem que ela acabou de conhecer. Mas nossa sessentona gatinha queria mais era viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar na certeza de ser uma eterna aprendiz... As noites na Aruc eram longas, muito longas.

E o romance só não terminou bem porque a amante de Biu cansou da mordomia que a namorada dele proporcionava ao casal sambista. Matilde acordou um dia atravessada do juízo e deu um basta. Era ela ou a coroa sessentona e gatinha coisa nenhuma. Que Biu tomasse as providências, antes que ela pegasse pesado, leia-se aqui: iria esbolachar a gata. E disse de um jeito que só mulher decidida sabe, do tipo que não há coisa ruim que ela não possa piorar.

O Cruzeiro nunca havia presenciado tanta baixaria. O pau comeu. Metade foi pra delegacia, e a outra para o Hospital de Base. Pra resumir, Raysinha entrou na justiça para recuperar os bens ofertados naquela fase Ana Carolina e Seu Jorge que os dois viveram. E Biusinho fugiu com a primeira-dama para outra cidade-satélite, local incerto e ignorado, como ficou no laudo policial, aparecendo só de quando em vez nos ensaios da Aruc.

Postado por Roberto Borges

OSÓRIO E OS HINOS

Poucas pessoas tinham uma relação de amor com os animais como Marcelino. O carinho com os bichos, de todas as espécies, vinha da infância, desde que deu os primeiros passos. No quintal da casa, o menino Marcelino criava uma diversificada fauna. Para desespero das empregadas da família, até cobra podia ser vista tomando sol perto da goiabeira.

Além de cuidar bem dos animais, Marcelino tinha um dom especial. Sabia amestrar qualquer espécime. Os insetos também se rendiam ao seu domínio: pulgas, aranhas, baratas, o que fosse. Infindável a lista: pássaros, jabotis, cachorros, gatos e até corujas já haviam passado pelas exaustivas aulas de adestramento. Os resultados impressionavam até mesmo profissionais experientes.

Ninguém melhor do que um tio veterinário para definir a excepcional capacidade de Marcelino em treinar, condicionar e desenvolver habilidades nos animais:

__ É um dom nato, aguçadíssimo. E os bichos pressentem isso. Sabem que Marcelino gosta deles, se comunicam e lhe obedecem, numa boa.

Mas o tempo da infância e das lições de amestramento ficara para trás. Marcelino se formou em advocacia. Abriu escritório e, como é natural, foi morar sozinho num apartamento pequeno, mas confortável. Sozinho não, levou consigo Osório, um papagaio bonito, loquaz, muito esperto.

___ Parece gente, meu Deus.

A criadagem da mãe de Marcelino fazia a propaganda do bicho. A alimentação de Osório também era diferenciada. O papagaio só comia alface americano sem agrotóxico e vegetais hidropônicos. Estimulado, Osório falava coisas engraçadíssimas. No entanto, os seus melhores dotes eram assoviar, com perfeição, os hinos: o Nacional e o da Bandeira. Um verdadeiro mestre na arte de assoviar.

O próprio Marcelino deixava a modéstia de lado e reconhecia que tinha sido uma das suas maiores façanhas como amestrador ensinar a Osório os belos acordes de nossos hinos. Havia se superado, aplicando técnicas sofisticadas. Com um detalhe importante: Osório fora condicionado a assoviar o Hino Nacional toda vez que chegava alguém do sexo masculino na casa. E o da Bandeira, na visita de alguém do sexo feminino.

Mas, aí, só Marcelino conhecia, e mais ninguém, esses processos associativos de Osório. Orgulhoso, dizia para si mesmo:

­­­­­­___ Segredos profissionais não se revelam.

Quando retornava do escritório, a primeira coisa que Marcelino fazia era verificar se Osório estava bem, saudável, se tinha se alimentado direitinho. O papagaio animava-se todo, batia as asas, jogava água para os lados, uma festa. E quase sempre assoviava um dos hinos do seu repertório.

No café, na manhã seguinte, Marcelino perguntava à diarista que limpava o apartamento:

__ Maria José, qual foi o homem que esteve aqui ontem?

Surpresa, a diarista informava:

__ Ah, foi o rapaz da entrega da água mineral.

Noutra manhã, Marcelino interrogava:

__ O que a mulher que veio ontem no apartamento queria?

E Maria José respondia, desconfiada:

__ Foi a vizinha do lado. Ela veio pedir emprestado o jornal. Como o senhor soube?

Marcelino soltava um risinho e mudava logo de assunto.

O escritório ia bem. Marcelino recebeu, de uma vez só, uma bolada de honorários, resultado de uma causa ganha em defesa de um empresário, contumaz sonegador de impostos.

Ligou para Fabíola e foi direto ao ponto:

__ Vamos casar!

Marcelino e Fabíola estavam noivos há dois anos. Quando mais jovem, Fabíola namorara meio mundo, mas estacionara na barba fechada de Marcelino. Moça inteligente, sensível, pesquisadora de um instituto de preservação de fósseis de dinossauros. Tinha hábitos meio alternativos, mas não incompatíveis com a maneira de Marcelino ver o mundo. A resposta de Fabíola ao convite nupcial foi um sonoro “sim”, seguida de uma longa risada.

Com o dinheiro dos honorários, Marcelino comprou uma casa ampla, com jardim, num bairro de classe média. E Fabíola se encarregou de encomendar os móveis e outros objetos necessários para uma vida a dois. O advogado estranhou o exotismo do mobiliário, mas permaneceu calado. Ele também tinha os seus caprichos. Osório iria compartilhar a felicidade do casal.

__ Vamos comprar uma gaiola nova para Osório.

A idéia de uma felicidade a três encontrou, de início, uma discreta resistência da noiva. Mas, enfim, um papagaio não atrapalharia em nada o casamento.

Semanas depois de casados, Marcelino precisou viajar para o interior. Defesa de mais um notório sonegador de impostos. Retornou em poucos dias. Beijou a esposa e foi “conversar” com Osório. O papagaio demonstrou a alegria de sempre e assoviou, patrioticamente, o Hino da Bandeira.

No jantar, Marcelino perguntou a Fabíola:

__ Você recebeu a visita da sua família?

Fabíola:

__ Ah, sim, mamãe veio conhecer a nossa casa.

No mês seguinte, outra audiência para livrar dos labirintos da Justiça o cliente sonegador de impostos. Na volta, o mesmo ritual doméstico: beijos e abraços na esposa e a “conversa” afetuosa com Osório. Festivo como sempre, o papagaio entoou o Hino da Bandeira.

Na mesa, Marcelino, ainda limpando a boca com o guardanapo, indagou:

__ Querida, qual foi a mulher que esteve aqui na minha ausência?

Fabíola, espantada:

__ A minha irmã, que veio me visitar. Ora, Marcelino, você comeu bosta de cigano para adivinhar?

Marcelino dissimulou, rindo com a observação irritada da esposa.

Como o processo do sonegador se arrastava pelo Fórum, o advogado se viu obrigado a fazer mais uma viagem.

__ Volto em dois dias.

De fato, na quinta-feira, Marcelino já tinha retornado. Ouviu as novidades e as fofocas familiares contadas pela esposa, e se lembrou de Osório. O papagaio estava irrequieto, a demonstrar satisfação em rever o seu dono. E assoviou, afinadíssimo, o Hino Nacional.

No jantar, Marcelino comeu em silêncio, a dúvida tirando o gosto do fígado acebolado. Alegou cansaço e recolheu-se.

No dia seguinte, no escritório, ficou remoendo os acordes de Osório. Preferiu esquecer o episódio.

___ Até Osório é capaz de cometer equívocos. Certamente ele se confundiu. Trocou o sexo da visita.

Na outra semana, viajou de novo, desta vez na companhia do sonegador. O processo estava perto do fim. No retorno, foi logo saudado com as vibrantes notas do Hino Nacional emitidas pelo bico afinado de Osório. Marcelino brincou com o bicho, conversou amenidades com Fabíola e pegou o jornal para ler.

Quinze dias depois, avisou à esposa que iria viajar. O juiz tinha dado a sentença do caso do sonegador e ele entraria com alguns recursos. Despediu-se da mulher e de Osório.

No entanto, o roteiro programado era outro. Hospedou-se num hotel, a dois quarteirões próximos de sua casa. À noite, escondido atrás de uma árvore, na parte mais escura da rua, Marcelino viu entrar na casa dele um rapaz que conhecia de vista. Um dos ex-namorados da antiga coleção de Sonia. A visita durou umas duas horas. Arrasado pela traição conjugal, Marcelino não conseguiu dormir. Olhos fixos na televisão do quarto do hotel.

No final da tarde seguinte, passou rapidamente no escritório. Remexeu a escrivaninha e encontrou o que procurava: o revólver 38, presente de um cliente com vários processos por estelionato nas costas. Colocou a arma na pasta e seguiu para casa.

Não teve coragem de olhar o papagaio. No jantar, informou a Fabíola que tinha tomado uma decisão. Sofrida, mas necessária. Iria se desfazer de Osório. Notara que ele andava tristonho. Talvez fosse solidão. Fabíola não se conteve, achou a idéia ótima.

__ Meu bem, esse papagaio está me deixando louca. Não para de assoviar o Hino Nacional.

No sábado, Marcelino acordou cedo. Tomou café em silêncio. Já estava decidido. Não mataria Osório, como havia pensado. Pouparia a vida do bicho de estimação. Pegou Osório e o levou ao Mercado da Madalena. Não teve dificuldade de vender o papagaio. Quarenta reais.

Na volta para casa, Marcelino estava felicíssimo, louco para beijar Fabíola.

E, como um virtuose, assoviava o Hino Nacional. Tão bem como Osório.

Postado por Amin Stepple

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O BRUXO TRAVESTI

Ganhava mais no tarô que na calçada, mas chutava com as duas, pra garantir.

Vida dura. Só dormia depois do auxílio luxuoso de um dorflex, e de cantar bem baixinho, como quem reza: meu sangue latino-uu/minh'alma cati-vaaaaa...

Em seguida declamava o terço, com o crucifixo na mão esquerda, dica da avó piauiense que lhe ensinou também a acender meia vela diária pra Xangô e a deixar dez centavos mensais para a Universal.

De dia, atendia no consultório sentimental Tenda da Alegria, como El Bruxo do Núcleo Bandeirante, cidade-satélite de Brasília, e à noite, era a Madonna do setor hoteleiro sul da capital federal.

E o melhor disso tudo é que chegou a dar assistência aos membros de uma mesma família, ao mesmo tempo, esposa e marido ex-senador, cada qual atendido em suas carências, há muito e muito tempo atrás, estando todos os envolvidos já em outro mundo, é bom deixar bem claro.

Mas isso vai ser contado aqui mais adiante, agora vamos saber mais sobre quem foi Abgail.

Aos treze anos e já achava que não chegaria aos 15. Não entendia como as coisas funcionavam no interior do Piauí. Quase se matou com a faca de cortar pão num dia difícil de aniversário.

Foi salvo pela avó que desmaiou na cozinha do barraco segundos antes da consumação do ato suicida:

- Essa vida não me merece, voínha, eu quero sumir do Piauí e do mundo, para sempre, forever, forever, forever.

Mas a velha caiu aos pés dele balbuciando umas últimas palavras que mudaram o rumo daquela vida precocemente errante:

- Deixa de frescura, Biguinha, (apelido carinhoso e premonitório), e vai pra Brasília tentar um emprego público de faxineiro.

Dona Arquiticlínia sabia do que estava falando. Nos tempos áureos como empregada doméstica tivera um caso com um próspero político da terra natal que terminou por fazer carreira em Brasília. Quem mandava agora no clã era o neto dele, para quem ela enviou carta recomendando Biguinha, antes de bater as botas.

No ônibus para Brasília, Abigail foi salvo pelas músicas de Roberto Carlos. Precavido, levava sempre na mochila o cd pirata de estimação que tinha toda a coleção do rei - "as curvas se acabam e eu não vou mais passar..."

Mas vamos encurtar e saber de Abigail já como El Bruxo e Madonna que é o que interessa.

A prospecção de clientes para o primeiro caso era feita na feira do Núcleo, aos sábados, quando os corações partidos femininos estavam mais suscetíveis a botes.

Já a clientela mais punk, os engravatados enrustidos, foram capturados quando Biguinha trabalhou como faxineiro no Congresso, mais exatamente nos amplos banheiros do cafezinho da Câmara.

Mas não foi servidor público por muito tempo. É que, não gostava de bater o ponto nem de usar o crachá, e, também, registre-se, os negócios cresciam graças ao seu empreendedorismo na fidelização dos seus financiadores.

Quase não ía mais nem à feira nem ao Congresso. Atendia na tenda e em hotéis. Pagamento adiantado sempre, e o dinheiro de volta em caso de não atedimento total do cliente, o que raramente ocorria.

Na tenda, usava a fantasia que costumava desfilar no maracatu. Não cobrava a consulta, apenas a manutenção. Fazia amarrações e desamarrações em prazos curtos, e era este seu grande diferencial. Cuidava de vício, inveja, traição.

Na calçada, arrebentava. Salto agulha terceiro andar, e o que mais você possa imaginar quando pensar numa criatura que se transformava numas dez Madonnas possuídas pelo que há de mais demoníaco na face da terra.

A primeira-dama senatorial, aqui já citada, queria que as cartas respondessem por que o marido se distanciava cada vez. E este último adorava as mirabolantes posições que só a Madonna de Biguinha sabia fazer.

Resultado: financiaram o bruxo travesti por uma longa temporada, até o dia em que Abigail, vencido pelo estresse, a clientela aumentando cada vez mais, falou o que não devia. Acontece nos melhores negócios.

Por puro cansaço, para acalmar a alma daquela esposa desesperada, recomendou que ela praticasse determinadas posições que só o marido e a Madonna de Biguinha sabiam.

Detalhes tão pequenos de nós dois - olhaí o rei novamente.

Claro que deu rolo. E sumiram com o bruxo travesti para sempre, forever, forever, forever.

Por Roberto Borges

O PRIMEIRO AMERICANO A PISAR NO SERTÃO

O eletricista Mané Peba foi uma das figuras mais interessantes de Sousa, uma pequena cidade encravada no Sertão paraibano. A sua competência em resolver problemas de eletricidade ganhou fama entre os conterrâneos. Os convites de outras cidades começaram a chegar.

O primeiro veio de Patos, a 120 quilômetros de Sousa, uma distância considerável, levando-se em conta que o cenário era a década de quarenta. A iluminação daquelas pobres cidades sertanejas era feita a motor movido a diesel. Luz elétrica só vinte anos depois.

Com o motor quebrado há mais de uma semana, a cidade estava às escuras. O que gerava revolta dos moradores e desgaste para o prefeito. A solução estava no eletricista Mané Peba.
O dia da viagem, feita no lombo de um burro, foi marcada e a cidade ficou na expectativa de viver dias melhores. O problema todo é que essas cidadezinhas do interior nordestino, tão castigadas pelas secas, são terras férteis para boatos.

E logo se espalhou a onda de que o eletricista convidado para vir consertar o motor e devolver a luz às noites patoenses era um americano. E a não se falou outra coisa mais na cidade, onde nunca antes o solo havia sido pisado por um estrangeiro.

Como boato a favor não se desmente, o prefeito ficou na dele. E não é que o boato correu tanto que chegou aos ouvidos de Mané Peba? E o velho eletricista tão acostumado a mil peripécias decidiu que essa não iria passar em branco.

Como gostava de ser o centro das atenções, cuidou logo de mudar o visual, mandar fazer novas roubas (frouxas), deixou uma barbicha, afiou as costeletas e comprou um par de óculos Ray-ban de um cunhado que acabara de chegar de São Paulo. Na companhia de um "secretário", juntou tudo numa mala e se mandou para Patos no lombo de um burro.

Quando os dois chegaram à pensão do centro da cidade, já era tarde da noite e a população dormia. Pelo adiantado da hora, nem candeeiro aceso poderia ser visto em algum lugar. Na manhã seguinte, o dono da pensão se encarregou de informar aos moradores que o "americano" contratado para consertar o motor havia chegado à cidade. E foi grande a correria para a frente da pensão. Homem, mulher, menino e os velhos curiosos também. Todos queriam ver um americano de perto.

E eis que de repente saem à rua Mané Peba e seu ajudante, uma espécie de Sancho Pança, que a essas alturas já tinha assimilado os delírios do chefe, tal qual na obra de Miguel de Cervantes.
Mané Peba estava vestido com uma camisa de xadrez na cor avermelhada, uma calça cáqui bem frouxa, botas de cano longo e o tal óculos Ray-ban. A multidão acompanhou os dois até o local onde estava instalado o motor que seria consertado.

A cidade parou para assistir ao trabalho que seria desempenhado por um americano. O prefeito era aplaudido a todo instante pela população.

Eis que Mané Peba começa o trabalho, orgulhosíssimo de estar sendo visto pela massa ignara como um estrangeiro, como um americano do Norte.

Olha pro seu Sancho Pança e grita em alto e bom som:
"Um chavo!".
E o pobre do ajudante lhe entrega uma chave inglesa.
"Uma parafusa!". E por aí segue. E a multidão vai ao delírio. E como Mané Peba era mesmo competente, pouco antes da hora do almoço o motor voltou a funcionar.

Saudado pelo prefeito e muito aplaudido pela multidão, ele se dirigiu ao restaurante do centro da cidade para saborear uma suculenta carne de sol, tão comum ainda hoje na região.
Almoçou em paz, mas a multidão não arredou o pé da frente do restaurante para admirá-lo. Eis que chega o triste fim do nosso Policarpo Quaresma às avessas.

Ao deixar o restaurante, é reconhecido por um vaqueiro que estava atravessando Patos em direção a Sousa para levar uma boiada comprada por um rico fazendeiro da cidade.
E o vaqueiro grita efusivamente para Mané Peba, revelando, em poucas palavras, não só seu verdadeiro nome mas também suas aptidões profissionais:
"Mané Peba, grande eletricista lá de Sousa, nossa terra, que tás a fazer aqui tão distante?".

E a decepção foi geral!
A luz foi devolvida à população, mas o sonho dos moradores de Patos de ver um americano de perto ficou para depois, muito depois.

Postado por ítalo Rocha

O COVER DE NELSON NED

Pachula sempre viveu no circo. Na verdade, a troupe o adotou aos sete anos de idade, quando o encontrou escondido num trailer, numa das temporadas pelo sertão baiano. A infância se passou no trato dos animais e no picadeiro, a única escola desse artista nato. Com o tempo, Pachula aprendeu todos os truques que o transformaram numa das atrações do Circo Babilônia. Com o talento compactado em um metro e oito centímetros de altura, era o único anão do divertido grupo de palhaços. As piadas e os pastelões arrancavam gargalhadas e garantiam a bilheteria. A caravana do Babilônia cansou de contar quantas vezes percorreu o mapa empoeirado do Brasil. Mas, um dia, o público sumiu de vez, aprisionado pela luz azulada das novelas.

--- Cansei da vida na lona.

Repetia Pachula, a iludir a si mesmo, sem admitir que o espetáculo acabara. Às vezes o anão cedia à nostalgia. Lembrava do circo indo de cidade em cidade, dos tempos impermanentes da vida nômade. Sacrificada, diga-se, mas refúgio seguro contra o tédio. Os aplausos da distinta platéia recompensavam a falta de conforto, os riscos e até os amores abandonados.

--- O público sabe reconhecer o verdadeiro artista.

Disso Pachula não tinha dúvida, nada de queixas. Amores abandonados? Sim, lona que se arma e desarma num terreno baldio. Ao contrário dele, a grande paixão de Pachula não tinha medo de altura: a trapezista Denise. Loura de um metro e oitenta, sorriso aberto, confiante de quem jamais teme a morte. Artista perfeita, de gestos precisos, impulsos matemáticos.

__ E mais: quentíssima na cama.

Confidenciava o amante Pachula. Aliás, as aptidões de Denise nos lances do trapézio sexual quase causam uma tragédia. Certa noite, entusiasmada, a trapezista, com suas coxas grossas e firmes acostumadas aos desafios das alturas, deu uma prolongada “chave de pernas” em Pachula. O anão por pouco, muito pouco, não morreu asfixiado entre as pernas da namorada.

___Cheguei a ficar roxo!

Com o fim das jornadas circenses, Denise conquistou para si um destino de folhetim: desapareceu na estrada com um caixeiro-viajante. Pachula, dono de voz bonita e potente, decidiu sobreviver como cover do cantor Nelson Ned. As apresentações nos bares davam uns trocados e algumas refeições. Numa noite, ele foi apresentado a um empresário de shows. De lábia sedutora, Mário Aciolly convenceu Pachula de que ele era um produto artístico fácil de vender. O que faltava?

___Ninguém imita com tanta perfeição Nelson Ned. Ao ouvi-lo pela primeira vez, confesso que pensei que era o próprio Nelson. Além do mais, você é a cara dele e do mesmo tamanho. A partir de agora, você é o Nelson Ned.

Em pouco tempo, o esperto Mário Aciolly agendou vários espetáculos em cidades do interior. O show tinha forte apelo publicitário: “A VOLTA DE NELSON NED”. Casa sempre cheia, Pachula arrasava na interpretação dos sucessos de Nelson Ned.

___Vamos ficar ricos, milionários.

É o que se lia no olho grande e gordo do empresário, eufórico por ter fechado mais uma longa turnê, agora pelo interior da Paraíba.

Em Zabelê, terceira cidade programada do show “A VOLTA DE NELSON NED”, logo todos os ingressos foram vendidos. O empresário descobriu que até fã-clube o pequeno grande cantor brasileiro tinha em Zabelê. Gripado e febril, Pachula não estava na melhor forma. Tentou adiar a apresentação, mas Aciolly, receoso do prejuízo com a devolução dos ingresso, não concordou.

­­­___ Vai cantar de qualquer jeito.

Iniciado o show, Pachula esqueceu algumas das letras do repertório, provocando risos e piadas na platéia. A situação se complicou ao desafinar quando começou a cantar “eu hoje estou tão triste, eu precisava tanto conversar com Deus...”, um clássico que sempre levava o público às lágrimas. Um gaiato não se conteve e gritou:

___ Esse anão não é Nelson Ned, porra nenhuma. Nelson Ned é menor do que ele uns quinze centímetros.

Logo, outro, de chapéu de couro, berrou:

---Sai daí, toco de gente. Vai enrolar tua mãe.

Do fundo do salão lotado, uma mulher, de cabelo oxigenado, vestida com pouquíssima roupa, esbravejou:

___Esse anão não canta nada. É do Paraguai, é do Paraguai!

Era a senha que faltava para a massa avançar, enfurecida, sobre o palco, à caça do anão.

Na delegacia de Zabelê, Pachula passou duas semanas detido. Tempo suficiente para se recuperar dos hematomas e voltar a exercitar a voz. Ajudaram-no as longas serenatas incentivadas pelos outros presos e pela lua imaginária das canções populares. Nem os meganhas escondiam a emoção quando ouviam a voz aveludada de Pachula clamar, entre as grades enferrujadas, que “precisava tanto conversar com Deus...”

Na manhã em que foi solto, o anão recebeu como consolo um dos maiores elogios de sua curta carreira. Elogio sincero, sincero, do comissário de plantão:

­­­­­__Você, Pachula, canta bem melhor do que Nelson Ned.

Postado por Amin Stepple

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A SAFADA DO MINISTÉRIO

Ela era de parar o trânsito. Loira total. Do primeirinho ao último fio de cabelo daquele maravilhoso corpo escultural que deixava a rapaziada babando por onde passava.

Mas encontrou um colega de trabalho que não gostava da fruta e passou a sofrer os mais variados vexames no gabinete do Ministério onde trabalhava.

Os nomes aqui serão fictícios, por razões óbvias, mas não muito. Vamos aproximá-los ao máximo dos verdadeiros, com algumas características que não devem ser omitidas.

Apenas uma dica: foi no Ministério da Saúde, não na gestão atual, isso ocorreu há um bom tempo atrás, que fique bem claro. Marizete, vamos chamá-la assim, - o nome verdadeiro também terminava em ete, dava mole pelos corredores do Congresso, em busca de uma alma boa que lhe desse aconchego e um contracheque.

Já o servidor de carreira, Wanderley, assim mesmo - com w e y, como gostava de ressaltar, não admitia sacanagem de nenhuma forma no ambiente de trabalho.

Os dois vão se encontrar pela primeira vez num dos corredores do Ministério, numa tarde chuvosa brasiliense, logo depois que ele avistara o rebolado escandaloso dela na entrada do prédio.

Jamais imaginaria que aquela víbora iria sentar-se ao seu lado, minutos mais tarde, em seu território sagrado do gabinete ministerial. Mas isso é coisa pra se contar mais adiante, porque agora Marizete ainda rebola pelas vizinhanças da casa do povo.

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Ela chegava cedo, tipo nove, dez da manhã: vinha de metrô, da Ceilândia, cidade-satélite a 40 km de Brasília. Descia na rodoviária, tomava um ônibus, e saltava na parada da Esplanada que fica ao lado do Congresso Nacional.

Tirava o salto alto da bolsa, guardava o tênis, e encarava a galera com o vigor de uma rainha de bateria. É que, não lhe faltavam atributos, a começar pelo bumbum nota dez.

Não perdoava nem contínuo. O desempenho era o mesmo para senador, deputado, aspone e afins.

Um rebolado de calar um plenário inteiro em dia de votação de medida provisória.

O ponto alto era em frente à escada rolante da câmara, quando fingia se abaixar para pegar algum papel. A escada parava. Marizete atravessava o Túnel do Tempo - aquele longo corredor do senado federal, como se não existisse nada em volta a não ser suas pernas abençoadas.

E foi numa dessas voltinhas que ela fisgou um assessor parlamentar, experiente olheiro de ministro para essas ocasiões que, terminou por convidá-la a trabalhar na pasta da Saúde.

Marizete topou na hora, mas com algumas condições:

1.não sairia com o assessor antes da nomeação. 2. depois seria fiel apenas ao ministro. 3. Também queria carro pra levá-la em casa. 4. plano de saúde sem carência para a mãe doente.

Tudo, claro, foi aceito pela autoridade constituída, pois não devemos esquecer que, toda essa bufunfa sai dos quebrados cofres públicos.

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Primeiro dia no Ministério e já deu de cara com Wanderley, afobado, tremilicado, apressado. Os dois trombam de leve no corredor. Wandeco de-tes-tou. Desejou nunca mais rever aquela loira bunduda.

Mas como vimos há pouco, a vida não é bem assim, e os dois sentam-se à mesma mesa do gabinete.

Os colegas sentem o ambiente carregado e tentam amenizar o quadro antecipando o lanchinho do meio da manhã. Iogurte, granola e um bolinho de nozes que a mãe de Wanderley oferecia de vez em quando aos colegas. Mais ainda para aqueles que compravam os produtos de beleza que dona Arminda vendia para ajudar a pagar os estudos do filho prendado.

Foi um lanche seco, duro, amargo.

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E assim serão os dias daqui pra frente. Guerra.

O gabinete virou faixa de Gaza. De um lado, Marizete, com todo o apoio da chefia, com seu armamento pesado, levando trabalho pra casa do ministro; e, do outro, Wanderley, com meia dúzia de pedras na mão, tentando cumprir o regimento, cobrando as faltas e os atrasos da nossa gostosa ministerial.

Chegou até a pôr o nome dela na boca do sapo, no terreiro de pai Dimdim. Deixou cabelo da loira no sereno dentro da lata de leite Ninho. Enfim, fez misérias pra ver se o feitiço saía de cima do chefe.

Marizete apenas vivia o momento mágico. Renovou o guarda-roupa, alugou um Ford K, e ganhou até celular pré-pago com wifi. O ministro havia endoidado o cabeção. Era mulher pro ano inteiro.

Num péssimo dia, Wanderley avisou à esposa do ministro. Quem contou foi um sobrinho escolado, hacker total, via e-mail.

Marizete levou umas bolachas, na feira da Ceilândia, de um desconhecido, que mandou ela se mandar da capital federal se não quisesse aparecer com a boca cheia de formiga junto com a mãe e tudo.

Wanderley se fingiu de morto por um tempo, daí acabou o mandato do ministro, e agora é esperar que outra gostosa e outro candidato do povo façam mais um ninho de amor no gabinete.

Postado por Roberto Borges